
Parei à porta, observei como já estava gasta. Assim como as vidas ali já haviam sido gastas pelo tempo.
Não se esqueça de quem você é, nunca.

Não se esqueça de quem você é, nunca.



As luzes, os sons, os rostos não passam de borrões nos meus olhos e zumbidos na minha cabeça. Só conheço a rotina, as músicas não são as mesmas, o tempo não existe mais, é tudo um borrão contínuo de ações contínuas. Me pergunto quem eu deveria ser, a pessoa do sonho que não é mais idealizado?
O problema está em quando você se transforma apenas no que você faz, e se esquece de como você é, você se encontra sem rumo quando percebe que isso não é o bastante.
Queria poder ouvir uma canção de ninar, enquanto me preparava para voar e sorrir enrolada em um cobertor macio, esse era o sonho.
Mas agora estou cansada, não tenho tempo para as canções e não me ocorre mais voar, apenas fico aqui olhando para o céu, sem saber como alcançá-lo.
Mas não quero ser aquela pessoa que apenas observa a chuva cair do céu e atingir o vidro da janela sem coragem de ir lá fora e senti-la, sem preocupações, sem medo.
Quero atravessar a porta em um passo firme, decidido e conseguir aproveitar ao máximo o que há do lado de fora de mim mesma.
Se o que existe é a falta de emoções, falta de sentimentos e falta de sensações?
Sensações. É o que me falta, eu posso estar cansada de estar anestesiada pela rotina. A droga, a rotina que nos leva a se conformar com tudo o que acontece, tudo o que nos deixa assim, vazios.
A droga da rotina, que nos tira a habilidade de fazer escolhas, tira de nós a receita para a vida. Estar viva, arriscar, ter medo, superar o medo e tudo aquilo que me faz humana.
Gostaria de ter lembranças de quando andávamos pela rua sem compromisso, mas elas não existem. Seria apenas um dia perfeito em que as pessoas estariam se movendo todo o tempo, o céu estaria azul, mas eu não me lembro, pois não nos lembramos do que não existiu.
Como pode? Ter saudade de tudo aquilo que não vivi. Pode ser triste, mas receio dizer que ainda estou consciente, não me afoguei, não me conformo.
"O excessivo nos empobrece." John Dryden
